Maranhão registra quase 100 casos de abuso sexual contra crianças por mês
13/08/2019 15:48 em Novidades

O Maranhão registra em 2019 quase 100 casos por mês de violência sexual contra crianças. Os dados mais recentes são da Secretaria de Segurança Pública e apontam 321 casos de janeiro a abril deste ano. Em 2018 foram 1047 casos. Essa realidade pode ser ainda mais assustadora, já que muitos casos não chegam a ser denunciados.

“Há estimativas de organismos internacionais que demonstram que os números que chegam aos organismos oficiais não chegam nem a 10% do que efetivamente acontece. Então é um problema que ainda está ocultado, ainda não temos uma dimensão real do problema e nós precisamos trabalhar em cima disso para que essa cultura de estupros ocorridos dentro das relações familiares pare de acontecer como está”, declara a delegada especial da Mulher, Kazumi Tanaka.

Ainda de acordo com pesquisadores e especialistas, as consequências do abuso sexual devasta vidas e famílias.

“O abuso sexual traz consequências que podem se manifestar durante o tempo do abuso, mas geralmente essas consequências perduram. Para a família, existe um pacto de segredo estabelecido que são extremamente danosos, não só para a pessoa que é vítima, como, por exemplo, para os outros membros da família”, afirma a psicóloga Sandra Ory.

Outra característica comum entre casos de abuso contra menores está na relação de confiança e proximidade entre vítima e abusador.

“Os agressores se prevalecem da situação da relação de confiança que existe com a vítima e, por isso, os números indicam que 90% das agressões e abusos sexuais cometidos contra crianças e adolescentes são praticados por pessoas próximas ou do ciclo familiar dessa vítima. A gente tem pai, padastro, avô, avó, tios, irmãos, amigos íntimos, vizinhos… que se prevalecem da relação de confiança e o silêncio”, explica a delegada da Criança e do Adolescente, Ana Zélia Gomes.

O Centro de Perícias da Criança e do Adolescente em São Luís recebe cerca de 200 casos para analisar por mês, só na região. A perícia identifica se há ou sinais de abuso e nem sempre esses sinais aparecem no corpo.

“Temos casos aqui que não tinha o vestígio físico, a conjunção carnal, e que, no laudo psicológico, foi possível coletar um relato dela, os sinais, os sintomas da criança ou do adolescente, o que também é considerado uma prova”, declara a psicóloga Simone Rodrigues.

Tutóia – Três casos
Em Tutóia, a polícia investiga três casos de violência sexual contra crianças e adolescentes. Em um deles, há a suspeita de abuso sexual contra um bebê de apenas 1 mês e sete dias. Depois de passar mal, a criança foi levada para um hospital, onde peritos encontraram sinais de violência.

Fora a suspeita de estupro, a polícia investiga uma outra linha de investigação para saber se os ferimentos nas partes íntimas do bebê foram causados por instrumentos usados em uma lavagem intestinal a que a recém-nascida foi submetida.

Também em Tutóia, a polícia investiga um estupro coletivo. Cinco homens violentaram uma menina de 13 anos. Um adulto foi preso e três menores de idade foram apreendidos. Um quarto menor está foragido.

Em outro caso, uma criança de 11 anos está grávida depois de ter sido violentada por um amigo da família que a buscava na escola de moto. A polícia está fase de apuração ouvindo pessoas próximas. Acredita-se que os abusos começaram um ano antes dela engravidar.

Rompendo o silêncio
Depois de 25 anos, a escritora e cineasta Milena Carvalho decidiu falar sobre o que passou. Ela encontrou voz na escrita para falar sobre o abuso sexual que sofreu na adolescência e dos traumas que ficaram.

“Na escrita a gente é livre. Sou eu e o papel. Tá tudo bem. Eu posso falar o que eu quiser. Durante esse trabalho, eu percebi que ajudava, organizava mesmo os sentimentos e as coisas foram ficando mais fáceis. Foi depois disso que eu resolvi trabalhar esses exercícios comigo também, procurar ajuda médica, que é fundamental”, conta a escritora.

A Milena relata que está ferida até hoje, com marcas invisíveis para quem não conhece a história. Atualmente, ela tem um projeto social para ouvir e ajudar a amenizar a dor de outras vítimas, para que a dor dela também diminua.

“A dor maior é porque as coisas continuam acontecendo. Não foi um fato que aconteceu comigo ou outro e ficou por lá. Acontece todo dia, né? É isso que não me deixa sarar”.

G1/MA

 

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